Texto publicado em
27 de Dezembro de 2009 no FB em comentário a uma nota do Manuel Adriano
Rodrigues sobre o aproveitamento consumista dos eventos, conduzindo à perda de
liberdade de escolha do homem
O
problema não está no evento nem na sua essência. Afinal, Deus é um Deus de
eventos. E o Seu grande evento foi a Sua revelação. Ora, só há revelação se
houver quem revele e quem esteja disposto a compartilhar essa revelação. Porque
revelação implica comunhão. E isso é evento. De resto, na sua essência, o homem
só é homem na medida em que se complementa no outro e o encontro com o outro
implica evento. Afinal, o homem reflecte a própria natureza do divino e disso
ecoam as verdades eternas – «não é bom que o homem esteja sozinho», «Jesus é
Emanuel». O homem dito «selvagem» (na óptica de J. J. Rousseau e «le bon
sauvage») soube entender esta dinâmica própria do humano e disso dá conta nos
seus diversos ritos de passagem. E no cumprimento, respeito, observância desses
ritos, o homem «selvagem» encontra o seu equilíbrio nesta tensão entre a
imanência e a transcendência. O rito de passagem é fundamental ao homem para o
seu equilíbrio e o homem ocidental continua a ser homem e continua necessitado
desse equilíbrio que o rito de passagem lhe confere e por isso não rejeita as
diversas propostas que lhe são oferecidos, sempre na expectativa de que lhe
seja apresentado produto genuíno. O problema é que a sociedade ocidental,
marcadamente capitalista, leia-se consumista, leia-se sociedade do ter e haver,
propõe um homem desligado desta tensão. E ao desligá-lo, desumaniza-o,
desenraíza-o, fá-lo perder a essência própria. E o evento transforma-se numa
farsa. Não é o evento que eu rejeito, porque o evento-fenómeno e a maioria dos
eventos-factos não são criação de um sistema cultural desumanizado. O que
rejeito é a sua apropriação indevida e a sua redução a algo que não passa de
uma caricatura. Quando se transforma o homem em homo oeconomicus outra coisa
não seria de esperar.